sábado, 27 de setembro de 2008

distracções, parvoíces mesmo e doces dedos no cú!

É intrínseco, está-nos na massa do sangue, é coisa anterior à génese da portucalidade em tempos do Sr. Henriques, Afonso de primeiro nome, já dizam os romanos .. ' não se governam nem se deixam governar '.. numa antevisão ao nosso actual .. ' não fodemos nem saímos de cima ! '. O pessoal ' tasse a cagar ', desde que possa debitar reclamos à mesa da refeição, na bicha para um qualquer balcão, em sitio qualquer onde haja uma alminha a ouvir-nos e a assentir em idiotas meneios de cabeça, sim's de manada, chamemos-lhes assim. Trinta e quatro anos depois da revolução, e por muito relativa que seja a noção de muito ou pouco tempo, trinta e quatro anos já são qualquer coisinha, neste tempo todo não ganhámos um pingo que fosse de dignidade enquanto povo inteiro, a malta não quer saber, não se enxerga desde que possa alardear alarvidades, intelectuais claro, em sitios todos, com um imbecil por plateia pelo menos.
Somos contra o aborto ( desde que o possamos fazer de surra e em segurança ) porque ... a Igreja assim o diz, somos a favor do aborto ( num género de fartar vilanagem ) porque ... a esquerda e suas liberdades assim o recomendam. Pensamos a sério na coisa, suas raízes e/ou soluções? Nahhhh! Mantemos esta eterna entrega ao Benfica-Sporting da política, por entre duas forças partidárias que souberam ocupar o sofá e ir empurrando a razão das ideias para lado nenhum. Alternativas ? Uns que repetem a mesma lenga lenga de há anos e anos e anos atrás, como se não tivessem caído muros da vergonha, como se ainda brincássemos ao salto à corda e sem Playstations. Outros que defendem tudo o que mexe e cheira a minoria, por medíocre que seja essa minoria, por idiota que seja o argumento. É-se contra os de direita, contra os de esquerda, quando 90% da populaça teria de andar com uma pedra na mão para distinguir qual é qual. Não me lembro da última vez que esta nossa gente se indignou contra a total indiferença com que é tratada. Por tudo e todos, gente do governo, da oposição, dos sindicatos, maçonarias e obras de deus. Curiosamente sempre os mesmos, apenas com mudança de cadeira prévia e alegremente combinada. Por gananciosos também . Por preguiçosos ainda! E nós ? Nós ... pois !
Casa Pia? Melancia? Felgueiras e Isaltino? Futebol de putaria? Assaltos, assaltos e companhia? Partos em ambulâncias e urgências fechadas porque o Doutor está doente? As notinhas de Matemática que sobem na medida da Tabuada perguntada que desce, alguma coisa indigna esta gente ? Nãozinho mesmo.
Todos somos contra o lixo, que se incinere ou co-incinere, ou anti-incinere se tal existir. Ao pé de nós? Vai de metro Satanás. Somos contra ... mas a favor lá longe! Reciclar? Sim, quem sabe, talvez. Lixo apenas, no entanto, nunca ideias, nunca mentalidades, nunca partidozinho a votar, nunca nada pelo amor de deus, nada que nos faça pensar quem somos ou o que queremos.
Tudo isto porquê? Por nada. Passei por acaso num posto da BP a caminho de casa. Logo hoje, dia em que a DECO, a tal associação que tanto faz e para nada serve... logo hoje que ela nos alertara e incitara para uma reacção popular. Ainda que de efeitos práticos pouco fatais para o monstrozinho das gananciosas petrolíferas e seu aliado Estado arrebatador de impostos por ali ... ainda assim valia a pena tentar alertar essa canalha que o Povo já começa a estar farto e seria capaz de reagir. De trocar a lengalenga que abre e fecha telejornais há meses, numa conversa fiada de que o barril sobe e a gasolina também , o barril desce e ela não ... e mais isto e mais aquilo, sem se dar conta de que entre mortos e feridos, já mamou o polvo umas toneladas boas para a sua engorda, que dê para chulos e todos os quejandos. No entretanto os do costume engordam, sempre os mesmos, Estado incluído, o mexilhão, o eterno fodido quando o mar bate na rocha, cansado da mesma conversa de merda em bichas e balcões, desesperado porque já ninguém liga à sua douta teoria de como tudo resolver, o cidadão tinha ali oportunidade de, sem grande trabalho, dar um ar da sua graça, dedo no ar, sinónimo de existência. Passei no posto da BP, dizia e que vi eu? As seis bombas, SEIS, todas ocupadinhas a abastecer. Tirando o caso improvável de um deles estar a fazê-lo porque a avózinha, recuperada do coma, vira rebentar-lhe as águas e ia parir, tirando esse caso ... todos os outros se esqueceram ou não tomaram conhecimento de que era dia de se ser, de se dizer qualquer coisa ' àqueles cabrões ', como sói dizer-se e ouvir-se na vox populi. Calhando estavam distraídos, calhando eram parvos mesmo, quiçá já não os incomoda o doce dedo no cú que politiqueiros e patos bravos lhes metem diáriamente por entre palavras de entretém.
Mais logo há Benfica - Sporting e isso é que conta. Tá bem que é fodida a hora, é à noitinha, não dá para levar os putos, nem gente de familia que aquilo deve dar porrada e mais isto e aquilo, até isso nos tiraram, mas fazer o quê? Os Oliveirinhas assim querem, há que meter audiências e publicidades, vender sopas e sabão no intervalo televisivo. Vamos reclamar ? Não ... e para quê, assim há mais espaço ... num jogo que dantes metia 100 000 se necessário fosse, hoje menos de metade e já gozamos, fica em privado, que nas horas das coisas mandam eles. Nas horas e em tudo.
Nós.... bem seguimos distraídos, na melhor das hipóteses. Ou então somos parvos, ou gostamnos mesmo é de apêndices no cú. Doces claro. Como as palavras que nos embalam!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

surdezes e bigodes alarves!

Cai o vermelho e páro no semáforo. Na ocupação da espera olho em frente para o trânsito que iria fluir na minha perpendicular. Iria .. digo bem. Um velho Renault Super 5, velho de vinte anos ou mais, queda-se imóvel no primeirinho lugar da fila que deveria arrancar, ao volante faz-lhe jus em antiguidade ultrapassada a condutora, senhora de setentas e muitos ou mais, palpitando por baixo para não errar por largo. Por detrás dos seus óculos debate-se certamente sobre a cor que emana do poste iluminado e seu significado, hesita por entre lembrar-se como mover o veículo ou talvez quem era e o que fazia ela por ali. Atrás, bem atrás de si, Mercedes creme, modelo de finais do século passado, condutor, ou melhor motorista, de bigode, ar impaciente e incrédulo, buzina na mão, mão na buzina, esquecendo por certo o quanto agride a natureza e irrita o mundo pelo simples facto de existir com aquele arzinho e feitio de idiota encartado. A senhora, a idosa personagem que naquele momento barra o avanço e impede o progresso do mundinho do cavalheiro de unha avantajada, permanece e evolui na continuidade das suas dúvidas, sobre o que fará ela por ali, responsável pelo fluir do trânsito e no entanto sem a colaboração do veículo que a não compreende. A surdez e total alheamento permitem-lhe passar ao lado dos cada vez mais ajavardados e gesticulados modos do 'homem de neanderthal' que a buzinadelas pretende despoletar a física do movimento alheio. Debalde!
Cai o verde e tenho de arrancar, nunca tanto desejei o prolongamento de um sinal encarnado, ' arranca pai ' grita-me o Kuka, arranco pois, não sem pena de deixar para trás aquele momento de Fellini, de surdas antiguidades e ruidosas alarvidades de bigode e marquise em casa certamente. Passo rente ao cenário, envio beijo fantasma à querida surda, vomito mentalmente no banco traseiro do taxista e sigo ao destino, esqueço a parelha.
Amanhã passo por lá de novo, com um pouquinho de sorte ainda estarão por lá ...

monólogo ...

- Assim como um vento sem força, entendes?
- Não ...
- Como .. como ... se não existisse, não ventasse, sem rumo, vês?
- Pois, quer dizer, talvez sim . Um vento de ninguém ?
- Não, não estás a ver, um vento de toda a gente, assim .. parado, suspenso .. sei lá, um vento que não vai ...
- Um vento de gente parada?
- Ou de gente sem vento se calhar... que não dança ... é isso, gente que não dança.. entendes ?
- Talvez, acho que sim. Deveria não é ?

sábado, 13 de setembro de 2008

arguida maria ...




Três semanas, malditos vinte e tal dias de tanto calcorrear, tanta berma de inferno, campos de ninguém, sitios de dormir e necessidades outras que o corpo, gasto e velho de rugas sem fim, não prescindia de se aliviar, raio de corpo dum cabrão, nem mal alimentado, fracamente servido, se coibia de a obrigar a cócoras que, mais que vergonhas de merda, a atormentavam na hora do retorno à posição de gente vertical, vertical sim, em idos de infância e postura também, fôra ela Maria mulher de bem, de honra e sagrados principios e para quê? .. não houvera um dia, unzinho sequer, em que o Senhor, louvado, rezado e oferendado, se lhe mostrasse, se já não em sóis de inverno e de parar dilúvios, ao menos em comida na mesa e gente que bem lhe quisesse. Pés encurralados numa gastura e dor que à alma se lhe comparava, chegara a Lisboa, essa tal tão vista em interferidos pretos e brancos de televisor de solteira, nunca houvera dinheiro para a troca, ele havia o vinho, quiçá as putas do marido também, Manel de nome que outro poderia ser? .. homem triste de tão igual que era à trampa que se lhe seguira, filho vadio que as côdeas lhe disputava, pois que em parques de estacionar carros não há restauração estúpida mãe ! ... Três semanas pois, chegada à grande luz e sonho de aldeias que vira partir, puxou do bolso o mapa rabiscado por insigne membro da junta de freguesia lá da terra, se alguém sabia de politica era o homem, comunista e sabedor desde os tempos da primeira dentição, vá por aqui ti Maria, vai lá dar, às cadeiras do poder, mas veja lá mulher, olhe que nem a ouvem. Ai iriam ouvir sim, tão logo entendesse emaranhado de tanto poste com luzes às cores, e os carros, tantos dum cabrão, seria velório ou dia de bola, mas de onde brotaria tanto emaranhado de olhar chanfrado, mãos na buzina, pressa de morrer? ... Assim lá na terra, nem em dia de procissão e louvaminhas ao padroeiro das mulheres castas, porra que achava que nem no estrangeiro, vislumbrado em antena de televisão espanhola, espectáculo destes havia visto ela Maria.
Suada de ponta a eito, por entre peitos idos e descaidos, partes de vergonha e perna abaixo também, com cheiro que nem sabia de gente, chegou mais velha do que alguma vez se soubera, indagou à autoridade se confirmava ser ali, ali a casa dos doutores, engenheiros senhores em quem tanto ano acreditara, assentira em olhares e trejeitos de cabeça, tanta promesa escutara, beijos recebera, até à agonia final daquele ano, casa esventrada por drogaditos sem pudor, três vezes, sempre os mesmos, já nem para roubar senão espancar e violar, mais as garantidas sovas do marido, que à Guarda em queixas sussurava .. ' pois ti Maria, a gente nada pode ' ... do filho nem queria saber, antes a jorna em tempos de sol quente e fascismo, aos oitenta e três anos queria ainda acreditar, já tentara todas as Nossas Senhoras que sabia, amigos bom seria se houvessem, e afinal por onde andava a gente de Deus que lhe diziam ela ser, ladainha eterna do Padre da terra e do Papa também, diziam, Maria, afinal pessoa de vida de cão e trabalho?
Chegada à escadaria dos insignes, como lêra que se chamava a gente aquela, de verdades faladas, certamente no cú metidas, ali chegada Maria, sacou do testamento de promessas ouvidas, de votos entregues, naquele bocadinho de seres humanos que metera um dia na cabeça ser gente de acreditar, tragou guardado naco de pão, duro que nem cornos mas seu, cozido em forno de herança e mãos de mulher honrada, antes e depois do casório de infortúnio com Manel, bêbedo, velhaco e dançarino, contrariador de ditados enganadores, às entranhas de saia de cigana sacou navalha comprada em rifas de feira, alçou o braço gritando um sentido ' filhos da puta ' e tratou de se esventrar numa entrega de corpo a quem a alma lhe roubara.
Não era dia de sol, de justiça menos ainda, gorada a tentativa por célere agente da autoridade que o caminho zelava por manter longe de reboliços e falatórios, mais ambulância do INEM que por aqueles lados marcava o ponto a horas e prontidão, a S. José foi levada, porra um santo mais, nem os cabrões me largam, salva da morte, melhor da vida, talvez! Ergueu-se o mundo dos cidadãos, alertados por uma parafernália de TV´s ali tão despachadas, que não, espectáculos daqueles ali não ... julgada foi velha Maria, por atentado, dois no caso até, contra a Vida, fosse lá que merda isso fosse, e pela imprecação contra os doutos.
No recobro e sem visitas, acordada de dia que jurava não ter passado, cagou em paz e pela primeira vez Maria. Aliviava-se, repetia benzeduras, jurava não votar de novo, guardava timido e corado agradecimento aos insignes: nunca assim em sossego pudera cagar!!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

ali, nos degraus da solidão!



Eram tempos diferentes aqueles, de paz e acalmia, dias sem a angústia do entardecer, de passeio por entre as árvores que abraçavam o horizonte, nos acenavam em suaves vénias, eram dias de seguida vontade, onde tantos minutos contavam, todos os minutos mexiam e sabiam ter significado, os nomes pertenciam-nos, a praia ali quieta, tão quieta, como se se rendesse ao Inverno e suas cores de aconchegada gente que se embrulhava em mantos de sonhos com e sem chuva, lembras-te Avô? Aqueles eram tempos sem cheiro a pólvora e morte, sem rasto de mãos sujas e pobres, de fome arrastada em filas de ninguém mais, como era boa a luz que a janela deixava entrar, os pingos que martelavam parapeitos e desenhavam arabescos fugazes, o cheiro a madeira húmida, pão quente e batata doce. Não havia nada que para trás tivesse deixado, correra como correm os loucos atrás daquela meninice em que sabia serem seus os tempos, e não chegara, perto sequer, daqueles amanheceres de dias com cor. Não havia ninguém mais, haviam partido, na viagem louca do medo, no arrasto surreal da escura melodia da guerra, troavam os sons, mortas as batidas das gotas de água. Olhavam-se o velho e a criança, sabiam-se no fim, não há espaço para os fracos quando o homem se acobarda em seus silêncios, vazios de quereres ou palavras. Morreram quietos, abraçados talvez, ali nos degraus da solidão, sem frio nem sonhos mais. Assim os encontraram os regressados ao passado, deixado e abandonado. A guerra acabara, de vez para quem nunca a vira sua ou em seu ser quisera.

sábado, 6 de setembro de 2008

a tertúlia ... está de volta !


... dia 28 de Setembro, Fábrica Braço de Prata, sala Nietzsche, 15 horas, como de costume !

E o convidado é ....

Afonso Joaquim Sampaio e Paiva de Melo é um jornalista e escritor português.

Nasceu em Águeda a 18 de janeiro de 1964. Cursou Direito, mas enveredou pelo jornalismo. Colaborou desde muito cedo na «Soberania do Povo», esteve no «Semanário», passou fugazmente pel’ «O Liberal».

Foi redactor de «O Século»; colaborador eventual de «O Jornal»; colaborador e, mais tarde, redactor de «A Bola», cumprindo as funções de editor da secção internacional e sendo responsável pela concepção e edição de um suplemento chamado «A Bola de Domingo».

Ainda em «A Bola» foi coordenador de «A Bola Magazine». Foi Editor de Redacção de «O Jogo»; colaborador de «O Comércio do Porto» e de «A Capital»; comentador de futebol internacional da «Sport TV» e colunista da revista «Record Dez». Escreveu na revista «Fócus». foi correspondente em Portugal do jornal espanhol «As» e do jornal polaco «Reczespospolita», bem como colaborador das revistas japonesas «Soccer Hiyo» e «Sportiva2». Durante o Campeonato do Mundo de Futebol de 2002, foi colunista do jornal en:Aajkaal, de Calcutá.

Publicou reportagens e artigos de viagens na revista «Vida Mundial», no «Jornal de Letras», no suplemento «Fugas» do jornal «Público» e na revista «Atlântica». Escreveu muitos dos textos da «Grande Enciclopédia dos Europeus de Futebol», do «Diário de Notícias», tendo também contribuído para o «Anuário 2005», do mesmo «Diário de Notícias».

Foi durante muitos anos fornecedor de matérias para a «Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira». É correspondente em Portugal da revista francesa «France Football» desde 1995. Fez parte do Gabinete de Imprensa do Euro 2004, como Media Relations Manager, e foi Assessor de Imprensa para a Selecção A de futebol desde Janeiro de 2004 a Julho de 2006, tento estado presente no Euro 2004 e no Campeonato do Mundo de 2006.

Foi membro da Comissão de Honra e da Comissão Política da Candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República, sendo um dos responsáveis pelas áreas de Comunicação e Marketing.

Colaborou com a Fundação Luís Figo na área de comunicação.

É Grande Oficial da Ordem do Mérito, Medalha de Ouro da Federação Portuguesa de Futebol, membro honorário da Ordem da Nossa Srª da Conceição de Vila Viçosa e Judeu de Ouro da ANATA, Associação dos Naturais de Águeda. Traduziu livros para diversas editoras.

autor entre outras coisas de :


Portugal em calções : diário de um jornalista no Mundial 2002 (crónicas, Oficina do Livro) 2002
A Lenda de Jorge Bum!, com Ponto de Exclamação (contos, Prime Books) 2003
Guia dos resultados da Selecção Nacional de Futebol 2004
Doping – A Triste Vida do Super-Homem
(reportagem, em parceria com Rogério Azevedo, D. Quixote) 2004
Cinco Escudos Azuis – A história da selecção nacional de futebol de 1921 aos nossos dias (D. Quixote, com uma primeira edição de 2004 e reedição actualizada em 2006)
Uma sombra laranja-tigre : em forma de panchatantra (romance) 2005
poema sem maiúsculas
na colectânea de poemas inéditos Tantas Mãos, a Mesma Primavera (Oficina do Livro) 2005
Viagem em Redor do Planeta Eusébio (Prime Books) 2005
A Princesa-Que-Tinha-Uma-Luz-Por-Dentro (conto, Oficina do Livro) 2005
Factos, Números e Nomes da Selecção Nacional de Futebol (D. Quixote) 2005
Não Morrerei em Buenos Aires (poemas, D. Quixote) 2006
Todos Tenemos Una Buena História de Futbol (a propósito do Mundial 2006, Cafediario, Barcelona) 2006
A Pátria Fomos Nós (crónicas, Prime Books) 2006
Um Ano na Vida de Luís Figo (foi o responsável pelos textos do livro do fotógrafo Hamish Brown, editado pela Fundação Luís Figo) 2007
Cem anos de Benfica Sporting, Sporting Benfica 2007
Tantas Vezes Tu (romance, Editora Erasmos)
Manuel Quarenta e Maria Quarentena – Dois Personagens à Espera de um Romance (conto na colectânea de contos 40 (D. Quixote)
A Monótona Vida de Uóchinton Maria a Quem Chamavam o Homem-Porco (colectânea de contos portugueses inéditos, Histórias em Língua Portuguesa, Editora Ambar, organizada por Francisco Guedes)
A Morte Tem Sempre Música de Fundo (numa colectânea de textos feitos sobre ilustrações de Pedro Zamith Oficina do Livro)
El Corazón Negro de Portugal


... porque aprendi a conhecer o Afonso através do que escreve e do que ... diz, sei que irão ser duas horas e tal de pura conversa do melhor.....




quarta-feira, 20 de agosto de 2008

red @ NY !


... happens three times ! Yesterday, today and tomorrow !

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

manel, gente ninguém ...


Baloiçava a velha cadeira, o mesmo ranger de sempre e seu som, coisa dos dois, segredo de longe, como se os anos não significassem uma velhice e suas coisas idas, voavam as folhas e suas memórias a preto e branco, de antigos penteados e óculos de grossos aros, coisas do antigamente com cara de gente, desajeitados momentos de aprendizagem em robustos e pesados triciclos, abraços de tanto irmão, risos de esquecidos amigos, bailes e festas com danças de idos e tidos amores, partidas de coisas que acabam, novos caminhos e seus medos, por onde andaria gente aquela e tanta, momentos aqueles de paixão e segurança e crenças em deus menino, rangia a cadeira em seu eterno vaivém, o mesmo lugar, a mesma luz em casa sua, ali sentia o perfume único daquele bocado que tornara seu, como em trama onde não cabia ninguém mais, e agora pedia-lhe a memória viagem aos tempos da lentidão, de palavras que se trocavam, cartas que em angústia se esperavam, velha caixa de correio que tanto desejara, porta de rua e seus caminhos de liberdade gritada, de mundos de pequeno sem guerras que não de abraços, choros de menino a caminho de gente grande, velha e puta memória que o atraiçoava e passeava sem do baloiçar de uma cadeira sair, e as janelas iguais de sempre em pó escondidas de paisagem de vida, e a porta outrora grande agora apenas distante, baloiçava velho, gasto de pele e nome, Manel lembrava e sabia chamar-se, amigos adivinhava para sempre idos e perdidos em sua vida foragidos, e o vento, amado vento de fins de tarde e correrias, feito cumplice em torturas de folhear, chorava Manel velho suas lágrimas secando em ossudas formas de fim de vida, recordava seu primeiro tombo em cadeira aquela, o susto de reprimenda de mãe que não de nódoas negras de fácil esquecimento, lembrava as tardes de calor e sesta, de minutos de lenta vida que adiavam a liberdade anunciada, de um caminho de silêncio e sonhos sós que aprendera a desenhar em harmonia de ninguém mais, chorava ouvindo aquele ranger único, momento de volta de uma vida ao contrário, chorava como criança em memória, colo e cheiro nunca esquecidos.
Começara a chover, sentia pois o momento de voltas e regressos, despedidas e reencontros, levantou-se num desconhecido movimento como se a vida ali se deixasse, naquele ranger mágico que a vida lhe guardara, abriu a porta e saiu, para a intempérie de uma viagem sem volta, atravessou o abandonado quintal sem jogos nem gritarias de tempo pelo tempo, sentou-se no muro, eterno muro de companhia certa, quedo apanhou a chuva e nela se embalou, recordou tarde de loucura e primeiras liberdades na afronta à natureza selvagem do mundo que o esperava, fechou os olhos e morreu. Ali .. onde sempre viveu, morreu Manel, velho e criança de mundo seu !
Na sala, inventada sala de lugar que não existia já, baloiçava perdida Maria, pequena Maria neta de ninguém, embalada por um ranger de melodia, nostálgica de afagos e carinhos de um velho que não queria esquecer.

domingo, 10 de agosto de 2008

vade retro ( ou será vai de metro ?? ) ..cidadania !!

Em 1997, ali à beirinha da Expo, a rede do Metropolitano de Lisboa chegou ao Campo Grande, à mãozinha de semear do aeroporto por onde entrariam algumas dezenas de milhares de passageiros para o evento que mudou Lisboa e orgulhou o País, com este no seu melhor, vertente ajavardada de ultrapassagens e derrapagens de custos e prazos incluída! Mas ... estação do comboio subterrâneo no aeroporto ... tá quieto ó mau ! Entretanto, passados que foram perto de dez anitos, depois de amadurecida decisão de transferir a coisa dos aviões para outro lado, coisinha pensada, repensada, avaliada, estudada bem à Tuga, num vai para aqui ou vem dali, com insignificantes diferençazinhas de apenas alguns milhões largos de euros a serem sacados ao burro e costumeiro cidadão pagante de impostos mas que apenas discute penalties - que nunca chegou a entender ou saber contornos de coisa alguma, mas que interessa lá isso compadre ? - passados que foram esses anos dizia, o Metropolitano chega finalmente ao tal de aeroporto da Portela. Pergunto-me se se esqueceram de enviar fax ou mail aos rapazes, avisando da partida da estrutura para terras de Alcochete. Podiam ter mandado um paquete, de táxi bem se vê, afinal por ali há-os aos milhares, aos trilhares mesmo, coisinha poderosa do tio !!! O aeroporto no entretanto, a avaliar pelas obras ininterruptas lá por dentro, por onde andam e voam baixo os aviões, ou está a fazer as malas para ser encaixotado e transferido aos bocadinhos em contentores e camiões, ou vai expandir-se à rico e à pacóvio, com obra feita em dia de partida, quando em tantos anos e anos passados nadica de muito útil se fez por ali a não ser coser remendo atrás de remendo ...
A malta continua por aqui ... por entre táxis, metros, conversa de penalties e marcha atrás.
Reclamar, sem bençãozinhas de partidos mas à séria é que não ...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

... à volta do nada !

... para nada ! Há coisas que não chegam a sê-las. Pessoas também. O que não é obrigatóriamente mau, podemos ser nada num momento e lugar e essa condição tornar-nos satisfeitos, pode ser fantástico saber viver sem a eterna preocupação de para tudo termos uma posição, ideia ou ponto de vista alternativo. Essa é aliás uma coisa que quando entendida, não só nos retira grande parte do ' stress ', esta doença dos nossos dias, que acumulamos muitas vezes de um modo evidentemente desnecessário, como nos proporciona momentos de liberdade intelectual, emocional, que poderemos investir em pensamentos à volta de coisas interessantes como ir um pouco dentro de nós, de outros lugares em nós. Normalmente aprendemos isto à medida que avança a idade e pensamos ver reduzido o tempo que nos resta. Sensato. Menos tempo à vista, melhor tempo à mão ! Será?
Vem tudo isto a propósito do blogar, escrever, ler, conhecer ou mostrar um pouco de nós. E, por entre um mundo de conhecidos, temos a sorte de ver entrar outros também, nunca vistos e no entanto há muito esperados. Como em qualquer actividade, a diversidade de coisas novas pode ser do mais saudável, uma autêntica mais valia. Se no somatório de ideias deixadas e reconquistadas algumas provêm de anónima gente, abre-se um desafiante campo de ideias para cá e lá, por entre gente que parou também e ousou pensar. Impossível seria no entanto não encontrar na safra o eterno joio que dá sentido à vida ela mesmo, que faz entender a diferença entre valer a pena ou pedir arremesso para o caixote. Pobres anónimos anónimos que se escondem com nada, em nada, para nada !! Por norma e sorte, arremesso certeiro para longe sem sequer lhe guardar cheiro ou rancor !!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

manhã de pássaro ....

Manuel, franzino ser e menino, vagueava na costumada manhã, a mesma caminhada de sempre por entre coisas e pessoas que aprendera a tomar como suas, mais chegadas, menos chegadas, sem qualquer chegada até, em vazio sentido ou fraco abraço. A vida não lhe era madrasta, não se sorria porém em momentos muitos, era coisa de não aprofundar, como se tal lhe facultasse disponibilidade para se entreter num crescimento de anatomias simples,fossem fisicas ou se quisessem emocionais. A última vez que se perguntara pelo significado de algo, dera-se mal, a resposta viera repentina em imagens de vazio, aturdindo-o em qualquer vontade de questionar outros porquês. Assim, limitava-se a seu papel de circunstância, fazendo parte do horário de vida de alguns outros, sem sequer cuidar que sentimento lhes atribuir ou dedicar. Naquela manhã no entanto, reservara-lhe o destino, coisa cujo significado se lhe resumia ao dia por ainda vir, a peripécia de lidar com cheiro desconhecido, coisa terrena e ao mesmo tempo do além, tal era de vazios composto o seu mundo de franzino e despercebido menino. Chegado à praia, à de sempre, sua e de mais ninguém em manhãs de chuva de inverno, sentou-se descalço e fechou os olhos, sentindo nas frias e pesadas gotas o abraço da fúria de mundo que o não ignorava, antes lhe entrava pela alma e lhe sacudia seu fundo bem fundo, onde acreditava poder um dia ressuscitar. Saído da letargia de paisagem de solidão onde pertencia, abriu os olhos e tremeu perante a imagem de passarinho ali perdido e deslocado, destemido que até sua mão voou, amigo único que suas lágrimas sentiu, seu coração virgem invadiu sem medos ou cerimónias:
- Ficas comigo ?
Que sim, respondeu, que ficava, com ele e aquele bocado com cheiro de coisa desconhecida, poder mágico de fazer correr água e apertar um pouco de vida que de franzina se tornara em pedaço ao Homem inalcançável, assim vôo levantaram, o pássaro seu amigo e a esperança, de que pássaro se fizesse, tudo em si daria, a vida trocaria por aquele bocado apenas, nem sonhado ou a medo desejado, de ser livre sendo ninguém !

sábado, 19 de julho de 2008

Deusa Mãe

Deusa Mãe e coisa nada
Mulher de altar nenhum
Deusa Mãe, vida parada
Destino de homem algum

Olhas vida, calor e fome
E gente com fome e calor
Vida que a ganância come
Deusa Mãe sem teres amor

Olhar velho numa criança
Velhas rugas sem mudança
Alma fraca e corpos vãos
Juntos sem rezas de mãos

Naquele deserto de vidas
De medos por um Deus Pai
De coisas assim perdidas
Em caminhos por onde vai

Esse pobre e triste homem
Escondido de ti Deusa Mãe
Levado em vidas que somem
Ganância com nome ninguém

quarta-feira, 16 de julho de 2008

vida de vento !

vento
de som que dança
em vida e liberdade
tento
olhar a esperança
de ser livre sem idade

e voando no vento
sei pois que tento
olhar-te momento
e na vida me sento
com ventos de alento
em dias de tormento

venta vida, venta dia
a vós guardo mordomia
como quem ama vazia
vida sem gente vadia
de vento sem cobardia
de voar sem nostalgia

sabias vento que quando passas e nada deixas, em ti guardo e vôo por meus dias por ti trazidos ?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Poland in mailbox !!



Today I found this book in my mailbox. It's about a great country and was sent by two friends, Luka & Katerzyna, to whom I had the pleasure to show a tiny little bit of Portugal last year.
Gonna start reading today ...

Thanks K & L !!!

terça-feira, 1 de julho de 2008

do nada ....

... como se nada houvesse, como se o nada em seu espaço tropeçasse, do nada e para o nada, feito olhares com cores, cores de asas e garras, belezas opostas em desencontros de lonjura, como se um rápido passar deixasse vontade de prender qualquer coisa por ali, sitio de coisa nenhuma, algures em sitio algum, impessoalidade de palavras não trocadas, encontro não tido nem sequer na possibilidade imaginado, e por mais bocados em letras rascunhados, em momentos sem futuro desenhados, em coisas vãs de vãs multidões, como numa arena futurista de coisas pegadas com desapego, num espelho público de pessoais caminhos, intimos bocados, desse nada, o tal nada que houvesse, que dizer, como olhar não querendo entender, o surpreendente momento em que a ténue luz de coisa alguma refletida se sonha num olhar de ideias que com cores aparece, dias depois, tantos dias depois, de no nada tropeçar ... como se nada, o nada, houvesse !

domingo, 29 de junho de 2008

welcome back Kaza ....

Cause there are some things we just don't want to go away from our day by day ...

Glad you come back dear Kaza ..

http://dragonfly-giantsteps.blogspot.com/

terça-feira, 17 de junho de 2008

marco ...conto de verdadeiro nada !

Marco, esse era seu nome, questionara-se desde sempre que nome era aquele, não de gente nem pessoa, achava, de qualquer coisa mas não de gente e no entanto era o dele, quer dizer o que usavam para o chamar, nunca a ele se ligara, Marco estava à porta da floresta, perguntava-se porquê, porquê ele ali e com aquele nome, nem floresta de jeito lhe parecia, apenas um emaranhado de coisas, de tantas e confusas coisas, de uma vida de escondidas coisas, de pessoas talvez, mas de coisas por certo, que coisas não entendia, outra coisa que o complicava, entender como aquilo, tanta coisa fora do sitio, das pessoas e dos lugares, entrara pois no emaranhado de mistérios, passeava na lama que se agarrava aos pés, descalço porquê estaria ele ali ? ... caminhava e pronto, desagradáveis os cheiros, garras de unhas pintadas e mascaradas, beijos lindos de judas de fraca figura, que pior para o ridículo que ao espelho não se visse, coisas de não ser e no entanto com nome, coisas de medo seriam ? .. coisas do escuro que ninguém via , ou via sem nada ver, e como se chamariam todos os outros .... tão familiares lhe pareciam, mas não sabia os nomes deles, quer dizer, os nomes sim, quem eram não, não com aquele cheiro e sorrisos de podridão, caras lindas de porra nenhuma, porque se chamaria ele assim, quem lhe dissera que era aquele o lugar, porque acreditara que era Marco ? ... porque nunca se vira com o tal nome de gente, qual não saberia responder, desde sempre se vira ali parado, tipo bocado inevitável de vida, olhou em busca, de amigo ou nome sabido, puxou para si e afastou, que horror de cheiro desconhecido, como teria sido possível chegar ali, sem nome dele, sem nada a não ser o bocado de dentro dele onde não havia outros nomes, nem de gente nem de coisas, abria e fechava os olhos àquela floresta, maldita floresta encantada que lhe deu cabo da pouca crença, daquela que mantinha à força de sonos e sonhos, porra, Marco o quê, de quê? .. seria por não existir que assim se chamava ? ... por nada conhecer a não ser das velhas , gastas e revendidas histórias de fadas que eram aquela gente do diabo, diabo ... seria esse o verdadeiro nome da coisa? ... gostaria o diabo de ter outro nome,.... Marco quem sabe ?
Saiu da floresta, fraco e enjoado, sentou-se, agarrou no seu nome e fugiu , não levou nada ou ninguém, nem tal pena valeria, quem o iria seguir e entender , logo a ele, Marco .... mas que pôrra de nome de nada ..... mas o dele afinal, não o de tantas coisas com nome e nada mais ....
Estranhou à saída seu nome ouvir chamar, quis acreditar que era para ele, ele que chamavam, olhou e viu a Floresta fugir, ela que se despedia num sorriso de vazio fantástico, num mar cheio de coisas fracas e vãs, como vão era seu nome, que bom, tudo se conjugava por fim, um nome de nada para um ninguém por si desconhecido.

Fechou o livro e adormeceu...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

poeta sonhador .. ou pai sonhador ?

Não é hábito ... mas é de justiça, postar aqui palavras ' não minhas ', quando me encantam ! Fi-lo com o editorial de um amigo ... faço-o com um poema de um rapaz de 13 anos. Não por ser meu filho mas ... porque me deixa a sonhar :



O Poeta Sonhador

O poeta foi embora
Caramba, e agora?

O poeta voou daqui
Não disse adeus
Nem a mim
Nem a ti!

Deixou cá a poesia
Mas a alegria
Essa levou-a ele
Para um lugar bem longe

Esqueceu-se do tinteiro
Da pena e do papel
À sombra do salgueiro
Foi crescendo a escrever

Voltou, o poeta!
"Saudades", disse ele
Cá para mim
Não gostou do sonho
E voltou da meta
Para o salgueiro enfadonho

Vemos todos, passa o ano
E o poeta talvez
De novo sonhador
Foi-se embora outra vez


Estranho homem, penso eu
Com um bocejo e um suspiro
Lembro-me do velho salgueiro
E do poeta no seu retiro

Corre em mim o pensamento
Para sempre estamos sós
E a memória do tormento
Daquele homem
O poeta sonhador!
Que já não está entre nós...


por Miguel Pais em ... http://migaspais.blogspot.com/

domingo, 8 de junho de 2008

ex-sonho em banho maria !

Há perto de trinta e cinco anos encantei-me com as letras e grafismo dos jornais desportivos. Há vinte e cinco sonhei que um dia escreveria um artigo num deles, aquele sonho que guardamos e nunca encerramos. Ontem aconteceu ....

JORNADA - Semanário Independente de Futebol.... nas bancas e com algo que nunca esquecerei, na página 45 !!

E deve haver café por lá ... ;-) !!!!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

tinha de vos avisar !!

... passo a transcrever o Editorial , escrito por um Amigo num novo projecto jornalístico - Jornada !. Por um Amigo que escreve .... como um dia irão descobrir e apreciar ..... do melhor, do melhor mesmo !!!!! Vale a pena lê-lo ... em qualquer registo !






JORNADA

UM JORNAL FELIZ
NUM PAÍS TRISTE

Parece-me ouvir casquinadas trocistas vindas das gargantas de alguns dos leitores que hoje, por interesse, por curiosidade ou por puro acaso, se depararam nas bancas com este seu novo jornal.
- Ah! Ah! Mais um...
Pois guarde, para já, o seu escárnio, caro leitor. Bem sei que tem motivos para certa desconfiança. Quantos jornais têm nascido e morrido, com e sem história, neste país que o mar não quer, como lhe chamava Ruy Belo.
Mas nós, que nos deitámos à aventureira tarefa de fazer o exemplar que está neste momento nas suas mãos, não acreditamos em fatalidades. Somos pelo direito à indignação, mas não temos direito à resignação.
Acreditamos em nós e em si: na nossa capacidade de fazer algo diferente; na sua vontade de ler e no nosso gosto de escrever, de ir à procura de notícias, de contar episódios e lembranças, de analisar, comentar, criticar tudo o que vemos e ouvimos, com lealdade, com verdade e com o desejo de esclarecer e de ser útil.
Não sei se, no mundo de hoje, está ou não tudo inventado. Mas não está, certamente, tudo re-inventado. Queremos um jornal que seja uma placa giratória de temas, ideias e opiniões, de pessoas dos mais diversos quadrantes, gente famosa e anónima, homens e mulheres próximos ou distantes daquilo a que se chama a Grande Imprensa.
«Jornada». No local em que escrevo, aqui à Av. Rio de Janeiro, em Alvalade, viveu José Gomes Ferreira, escritor, poeta, até músico. Entre as muitas obras de Fernando Lopes Graça musicadas sobre poemas de Gomes Ferreira há uma, talvez a mais conhecida, chamada «Jornada». Começa assim: «Não fiques para trás, oh companheiro».
Companheirismo: também é disto que trata esta missão de jornalistas que, como escreveu um dia Alfredo Farinha, com quem tive o prazer de trabalhar e aprender, «é ir à procura da vida no meio da vida, ir ao encontro do acontecimento onde ele aconteça, conhecer os problemas dos homens, devassar os segredos das coisas desconhecidas e saber a razão dos êxitos e dos fracassos da sociedade».
Foi, portanto, na casa em que viveu Gomes Ferreira que nasceu a «Jornada».
Será longa esta jornada, por vezes juncada de escolhos. É preciso coragem para continuar a caminhar num país parado. É preciso teimosia para se ser feliz num país triste. Acreditamos que o trabalho sério pode ser divertido. Queremos que, ao pegar neste novo jornal, se divirta a lê-lo ou a folheá-lo como nós nos divertimos a fazê-lo. E que pense e contribua. Que isto seja um diálogo e não um monólogo.
«You’ll never walk alone», cantam os adeptos do Liverpool. Quem já os ouviu, em Anfield, sabe como é arrepiante. Como nunca a dupla Rodgers e Hammerstein, que compôs, em 1945, o tema para o musical «Carousel» o terá provavelmente imaginado.
«Porque nenhum de nós anda sozinho/E até mortos vão ao nosso lado», canta-se em a «Jornada» de Gomes Fereira/Lopes Graça. E o poema foi, também ele, escrito em 1945.
Há sempre momentos em que o futebol e a vida se confundem.
Não andaremos sozinhos. Contamos consigo!

Afonso de Melo