segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

tectos, cheiros e sentidos !


O tecto era o de sempre, senão o mesmo pelo menos da mesma família de tectos impessoais e recheado de histórias. A companhia, como o tecto, era um enorme espaço em branco, de quem nada queria, de quem nada sabia, cujo sorriso e fala dengosa lhe cobravam, junto com o habitual arquear de coxas e gemidos de juntar água, mais que o combinado, cobravam questões existenciais.

- Tens um olhar triste ... um olhar triste e cheiro a fritos. És sempre assim?

Estranhou a pergunta, afinal sempre por ali aparecera numa estudada e perfeita figura, barbeado e de duche tomado, como quem vai a um teatro ... de sensações negociadas à posição!

O tecto, este novo que o cobria, salvo seja, era o de sempre, com sancas trabalhadas a reboco de artista, limpo e imaculado como o branco da pureza das virgens. À volta do manjar que preparava mais como passar do tempo do que por arte culinária, olhava o borbulhar do óleo e o seu efeito sobre a ementa que preparava. A companhia, como o cozinhado, era um rebuliço efervescente, mal com isto e aquilo, mal com o bem e o mal, de quem nada sabia já, de quem nada recordava, cujo rosto fechado e fala metálica lhe cobravam, junto com a mecânica e fingida sessão de perna arqueada e gemido de falsete, mais que o dia a dia, cobravam questões desistenciais.

- Tens um olhar idiota, um olhar idiota e cheiras a puta. És sempre o mesmo !

Estranhou a afirmação, afinal sempre por ali estava numa repetida figura, limpo de cheiros e pistas, com o mesmo ar cansado de um dia de intenso trabalho.

Pela primeira vez, sem segundas intenções, imaginou-se com uma terceira pessoa ... num quarto sem cheiros, sem quintas dimensões e sextos sentidos.

Apagou a luz e adormeceu!

9 comentários:

XR disse...

John,
fecho magistral.
Será que no sono, qual prisma icosaédrico por onde se observa a vida retratada como um caleidoscópio, descobriu o (im)paralelismo dos brancos tectos que nada reflectiam ?
Que sentidos a mais teriam as existências e as desistências que ele não alcançava?
;)
Beijoca

Fadinha da Sombra disse...

Belo texto :)

Beijitos :)

redjan disse...

XR: o sono .. pode ser isso ? Geeeeesus ... Quanto aos brancos tectos e desistências .. pois ! ;-)

Fadinha: Ainda bem que gostaste ... welcome to this humble place. Senta-te e toma cafá...

Anônimo disse...

Red, encarnado, vermelho, rubro, rouge, rojo... a mesma cor em tantas palavras de tons e sons que habitam no interior dos homens pintando-lhes as veias com cor que desperta os sentidos em sentimentos tão diversos, ricos, por vezes ambíguos, outras opostos…
Parabéns pelos últimos dois posts!!

Isis

Ana GG disse...

redjan
Já estou como tu...geeeeeeeee...que comentários rebuscados, sim senhora!

Ora bem, vamos ao que interessa, o texto...como sempre está "muito bom de se ler"...as conclusões, não me apetece tirar, é como olhar para uma pintura numa galeria de arte e gostar ou não, só porque sim, sem esmiuçar o tecnicismo da questão. Adorei o "olhar idiota e cheiro a puta"...adorei o final, a vontade de começar tudo de novo, sem cheiros.

Foi bom descobrir este "humble place"!

Vitor disse...

Amigo, passei por aqui para alimentar este belo vicio de te ler…e como cheguei atrasado, as senhoras aí em cima já quase disseram todo…daí!

Artur Guilherme Carvalho disse...

Parece que andas a tomar as gotas a horas certas. Produção ritmada, cadenciada e de boa qualidade...outra coisa não se podia esperar de ti.
ARTUR

XR disse...

Foi vontade de complicar, mesmo ... mas o sono, ou melhor, o sonho, é onde por vezes revemos os dias como num caleidoscópio, pedacinho aqui, pedacinho ali ... uma amálgama de cenas montada por um aspirante a editor de filmes sem muito jeito para a tarefa ;) só que por vezes lá pelo meio apercebemo-nos de algo que nos falhou na hora devida.

José Ceitil disse...

Amigo, andas de olfacto apurado! Cheira-me que a escrita também têm por aí um temperozito diferente. Mas é bom!