sábado, 13 de setembro de 2008

arguida maria ...




Três semanas, malditos vinte e tal dias de tanto calcorrear, tanta berma de inferno, campos de ninguém, sitios de dormir e necessidades outras que o corpo, gasto e velho de rugas sem fim, não prescindia de se aliviar, raio de corpo dum cabrão, nem mal alimentado, fracamente servido, se coibia de a obrigar a cócoras que, mais que vergonhas de merda, a atormentavam na hora do retorno à posição de gente vertical, vertical sim, em idos de infância e postura também, fôra ela Maria mulher de bem, de honra e sagrados principios e para quê? .. não houvera um dia, unzinho sequer, em que o Senhor, louvado, rezado e oferendado, se lhe mostrasse, se já não em sóis de inverno e de parar dilúvios, ao menos em comida na mesa e gente que bem lhe quisesse. Pés encurralados numa gastura e dor que à alma se lhe comparava, chegara a Lisboa, essa tal tão vista em interferidos pretos e brancos de televisor de solteira, nunca houvera dinheiro para a troca, ele havia o vinho, quiçá as putas do marido também, Manel de nome que outro poderia ser? .. homem triste de tão igual que era à trampa que se lhe seguira, filho vadio que as côdeas lhe disputava, pois que em parques de estacionar carros não há restauração estúpida mãe ! ... Três semanas pois, chegada à grande luz e sonho de aldeias que vira partir, puxou do bolso o mapa rabiscado por insigne membro da junta de freguesia lá da terra, se alguém sabia de politica era o homem, comunista e sabedor desde os tempos da primeira dentição, vá por aqui ti Maria, vai lá dar, às cadeiras do poder, mas veja lá mulher, olhe que nem a ouvem. Ai iriam ouvir sim, tão logo entendesse emaranhado de tanto poste com luzes às cores, e os carros, tantos dum cabrão, seria velório ou dia de bola, mas de onde brotaria tanto emaranhado de olhar chanfrado, mãos na buzina, pressa de morrer? ... Assim lá na terra, nem em dia de procissão e louvaminhas ao padroeiro das mulheres castas, porra que achava que nem no estrangeiro, vislumbrado em antena de televisão espanhola, espectáculo destes havia visto ela Maria.
Suada de ponta a eito, por entre peitos idos e descaidos, partes de vergonha e perna abaixo também, com cheiro que nem sabia de gente, chegou mais velha do que alguma vez se soubera, indagou à autoridade se confirmava ser ali, ali a casa dos doutores, engenheiros senhores em quem tanto ano acreditara, assentira em olhares e trejeitos de cabeça, tanta promesa escutara, beijos recebera, até à agonia final daquele ano, casa esventrada por drogaditos sem pudor, três vezes, sempre os mesmos, já nem para roubar senão espancar e violar, mais as garantidas sovas do marido, que à Guarda em queixas sussurava .. ' pois ti Maria, a gente nada pode ' ... do filho nem queria saber, antes a jorna em tempos de sol quente e fascismo, aos oitenta e três anos queria ainda acreditar, já tentara todas as Nossas Senhoras que sabia, amigos bom seria se houvessem, e afinal por onde andava a gente de Deus que lhe diziam ela ser, ladainha eterna do Padre da terra e do Papa também, diziam, Maria, afinal pessoa de vida de cão e trabalho?
Chegada à escadaria dos insignes, como lêra que se chamava a gente aquela, de verdades faladas, certamente no cú metidas, ali chegada Maria, sacou do testamento de promessas ouvidas, de votos entregues, naquele bocadinho de seres humanos que metera um dia na cabeça ser gente de acreditar, tragou guardado naco de pão, duro que nem cornos mas seu, cozido em forno de herança e mãos de mulher honrada, antes e depois do casório de infortúnio com Manel, bêbedo, velhaco e dançarino, contrariador de ditados enganadores, às entranhas de saia de cigana sacou navalha comprada em rifas de feira, alçou o braço gritando um sentido ' filhos da puta ' e tratou de se esventrar numa entrega de corpo a quem a alma lhe roubara.
Não era dia de sol, de justiça menos ainda, gorada a tentativa por célere agente da autoridade que o caminho zelava por manter longe de reboliços e falatórios, mais ambulância do INEM que por aqueles lados marcava o ponto a horas e prontidão, a S. José foi levada, porra um santo mais, nem os cabrões me largam, salva da morte, melhor da vida, talvez! Ergueu-se o mundo dos cidadãos, alertados por uma parafernália de TV´s ali tão despachadas, que não, espectáculos daqueles ali não ... julgada foi velha Maria, por atentado, dois no caso até, contra a Vida, fosse lá que merda isso fosse, e pela imprecação contra os doutos.
No recobro e sem visitas, acordada de dia que jurava não ter passado, cagou em paz e pela primeira vez Maria. Aliviava-se, repetia benzeduras, jurava não votar de novo, guardava timido e corado agradecimento aos insignes: nunca assim em sossego pudera cagar!!

8 comentários:

Vitor disse...

Desta vez não resisto…mas direitos de autor não vou pagar…o teu vernáculo vou utilizar…

Foda-se, este texto está demais!

Cati disse...

Para quando estes textos publicados em delicioso e "vernaculoso" livro???

Beijão!

Anônimo disse...

Sem palavras!!!!Só sentimento...
cris

Anônimo disse...

Credo...coitada da senhora...não lhe arranjaste uma sorte melhorzita nem nada? Pesado, não?
As fotos são fenomenais! O texto abaixo muito rico...!

(28 de Set. estou em Maastricht).
Bjs
Isa

dragonfly disse...

I love you photos, though I have no idea what you are writing about!

redjan disse...

vitor: no problem..

cati: livro? moi ?

cris: ;-)

isa: thanks

dragon: some words around forgotten people !

ze ceitil disse...

Amigo, a avó da Guida Maria é acusada de quê!?

redjan disse...

zé: de desistência e imprecação !