terça-feira, 21 de outubro de 2008

underware .. ou um post do além !

Tudo corria como Deus queria, aparentemente assim era, de acordo com os trâmites, cânones e outros trejeitos naquele tipo de cerimónia. A manhã apresentava-se até com um quente inesperado para a altura do ano, mês de Outubro que corria. O cenário, de gentes com pouca cor, pretos e brancos eram o que mais se via, apenas se via arriscaria até. Os ciprestes, árvore que pela dificuldade na sua pronúncia fôra atirada para jardins de calma muita e movimento pouco, arrastavam-se em seus equilibrios de coisa alta em vento de choros. As paramentas do orador estavam de acordo com o estipulado, as escritas lidas eram as indicadas para o efeito, partida de pessoa, despedida geral, encomenda da alma ao criador. Chorara a viuva, trocados abraços, beijos sem sabor, memórias e outras histórias, com a chorosa mulher, seus entes mais queridos e chegados também. Nem os cigarros e piadas soltas, por entre desatenções da turba haviam faltado. Tudo corria como Deus queria pois então. Manuel, o ido, preparado, despedido do dia e seguintes, Manuel, o vestido por outrém por incapacidades próprias, em dia de não escolher nem barbear, tampouco jantar ou palpitar, Manuel homenageado pois então, lamentado em seu azar e prematura partida, por mais que para lá de setenta e muitos contasse, Manuel não deixava de sentir um pequeno nada fora do tom, assim como se que descuidada borra em pintura escura, pequeno pequenino nada que nem agora em seus poderes de investido fantasma, servo de Deus em terra dos homens, nem agora conseguia descortinar. Estavam as carpideiras, estavam sim, rezas e choras, gritadas com irrepreensíveis e arrastados ai's, os amigos por ali também, presentes os dignitários que dos e pelos desconhecidos entregavam em representado desinteresse o adeus final da comunidade que o tivera e guardara! Quisera o céu escurecer um pouco até naquele momento de caras a olhar para o lado por entre desassobios da alma, em que à terra o haviam devolvido, como se a terra o pedisse de volta, pois então! Manuel tudo abençoava em seu perfeito desenrolar. Apenas uma brisa, aquela brisa quente e de aromas húmidos, lhe estava dificil de encaixar em cerimónia que não abençoava de pé e que no entanto pedia meças a batizados, crismas, casórios e outras que tais por onde espalhara tardes e horas mortas. Manuel, finda a coisa e despachado de lugares onde opinar lhe dizia respeito, fechou por fim os olhos já fechados, resmungou um último senão ao pormenor que o deixara intrigado e morreu de vez!
Maria, insigne representante de coisa de maior ou menor interesse, deu-se por feliz ao ver acabada a jornada por luto alheio e gozado o regresso a vida sua, casa também. Atirou o vestido ao chão e deu ao corpo o duche pedido. Surpreendeu-se com a imagem de pouca roupa espalhada no chão, e perguntava-se enquanto se ensaboava por que raio não usara roupa interior naquele dia. Mais que desassossegar a alma alheia, deixara a sua em polvorosa. De onde partira, por onde germinara bizzara ideia aquela ? Púdica e respeitadora, tivera dia de tesão mor e oração não escutada. Corada, acabou o duche pensando em Manuel. Bendito fosse! E bendito foi .. Manuel !

8 comentários:

Vitor disse...

Maria haveria de ser danada p’rá brincadeira. Entesada até ao fim…e o Manuel lá se foi…intrigado. Pudera!

redjan disse...

vitor: esta maria não conhecia este manuel !! mas pronto, está bem !

Anônimo disse...

"fechou por fim os olhos já fechados" what ?????? tu até escreves bem rapaz, emenda lá isso!

redjan disse...

anónimo:

' ... emenda lá isso! '

What?

Tu até lês bem rapaz .. lê lá outra vez !!

ze ceitil disse...

Amigo, porque insistes em dar vida aos anónimos? Eles não existem, não têm identidade e das duas uma: ou já morreram e ninguém os avisou ou então...estão mal enterrados! Caga neles.

redjan disse...

zé: tadinho ... ele sente-se só....

KI disse...

Adorei ler este post e vinha aqui na humilde partilha da minha opinião que tu és fantástico, excelente ritmo, prosa e expressões. Quanto à Maria... bem... bendita seja!

Mas o q me ri com a tadinhez da solidão do anónimo. Queres ver q tb tenho de emendar tadinhez?

Abraço :)

Cati disse...

A um amante que deixa saudades, Maria não poderia ter feito melhor homenagem.

:P

Beijoca*