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Esta é a simples história de um simples dia na companhia de coisas boas da vida que entendem juntar-se no mesmo tempo e lugar. Um dia de céu limpo, uma cidade chamada Nova Iorque e duas pessoas, Zé e Artur que tive a sorte de ver entrar na minha vida. Tudo se passou, nada se passou e o fim do dia chegou com aquela sensação de que há momentos que valem a pena.
Ferry Street
Cinco da manhã, novaiorquinas bem sei mas cinco da manhã de qualquer modo, o Zé interrompia o seu sono povoado por ressonos justificados e sempre negados, a caminho da eterna visita matinal que se faz à casa de banho quando o sono desaparece. Habituado a despertares de sono ligeiro de pai de criança de quatro anos, vi ali interrompido o meu trajecto do aconchego, sabia terminado o repouso e iniciado o dia que longa caminhada prometia. Entre cerimónias mais de preguiça que de outra coisa, num zapping à procura de novas nas primárias do Ohio que teimava em esbarrar nas ultimas, ou ausência delas, de rapariga perdida na montanha, o som da televisão seria por certo suficiente para acordar a vizinhança de três portas para cada lado do corredor, mas assim entendia necessário o meu parceiro de quarto. Após dois duches e a cerimónia do trajar a roupagem adequada a oito graus negativos, partimos em direcção à mui lusa Ferry Street, onde as torradas, croissants e bolas de Berlim substituem os tão americano-apreciados ovos sunnyside up, mai la catrefada de salsichas e baked beans. Tomado o mata-bicho e por ideia do Zé, tomámos o rumo de uns armazéns que por ali havia , sempre dava para fazer hora até abrir a loja de electrónica dos portugueses onde se pretendia comprar uma camera digital, reposição de stock a fim de esquecer o triste episódio em que o mais velho dos dois, num acesso de alemãozice, houvera deixado no táxi que na véspera fizera a corrida até ao NJ Gardens das compras inevitáveis, de rouparia e não só, marcas finas preços de pobre! Feita a coisa e no trajecto para o hotel e hora marcada com o terceiro compincha, - ‘ espera aí temos de entrar ali se queres mesmo comprar boxers e peúgas ao preço não da água, não da uva mijona, mas da década de 70 ‘. Hesitações e gracejos à parte, lá entrámos, historieta antiga sobre preços daquele local, eis senão quando a coisa se mantém, é um fartar vilanagem, quais trajes interiores qual nada, fomo-nos aos casacos e casacões, blusões anti frio, anti tudo, camisa de ar coçado a condizer com o meu gosto a atirar para o desmazelo, toca a pagar a pechincha, - ‘espera aí levo um cachecol também ... ‘ ah cachecol ainda bem que falas nisso deixei o meu por aí algures’ ... ‘ ai Zé esse alemão anda a dar-te, olha só tenho uma luva eu, que é feito do par? ‘ ... Lá estava, esquecida num molho de roupa entre provas, mau isto chega cedo, aos quarenta e cinco, na farmácia pedimos dose do remédio para os dois!
O resto do dia ...
Agasalhados e juntos os três, percorrido o curto trajecto até ao Path , meio comboio meio metro, nada que saber ... direitos à 34 St ainda que com mudanças de linha, foto para aqui e ali, tudo documentado não fosse a coisa acabar em post. Aterrados em plena Grande Maçã, tira luva, saca e acende cigarro, procura de um Starbucks, rotina que agradava ao par de mais novos, o ajuizado não fumava mas parava também, atravessa-se para o lado de lá e ..
‘ - Vocês sabem de quem é esta estátua?.... Pois é, assim, saiu a primeira conversa em torno de algo de jeito, Artur sabia atentos os amigos, carregou no detalhe da pessoa homenageada, pessoal isto merece foto alvitrei, - ‘ que sim! ‘ - acenaram os dois, tira luva e ajeita o cabelo, quem o tem e é ralinho ainda por cima, escolhido o transeunte que eternizaria o momento, chegada a hora de decidir o rumo.
- ‘ Então, subimos a 5ª até a o Central ?- andamos por lá, de charrete segundo o Artur, de bicicleta propôs o Zé, de patins disse eu, ideias muitas, frio também, ficámo-nos pela caminhada permanentemente interrompida para registo fotográfico. Na esquina com a 36 St. entrámos a fim de comer qualquer coisa mais, num muito agradável W Café, género de tem tudo, comida japonesa incluída. Sentados e quentinhos, mais umas fotos, lá aquecemos o corpo , o estômago e a alma, a onda do sitio era boa, dez dólares a cada um, nada mau, almoço em NY ao preço de lanche em posto da BP.
No Central Park, seguiu-se o arrazoado costumeiro de chapa a contra luz a abraçar lago gelado e arranha-céus, passeio tranquilo por entre uma paisagem que nos entra adentro para ficar e acalmar, são as gentes e as coisas, a natureza e seus habitantes que ali nos envolvem e atiram para para longe da vizinha e esquadrinhada NY no alcatrão.
Passaram os minutos e as horas sem que tal constituísse curiosidade ou preocupação, meia volta e descemos até Times Square, o jogo de luzes estava de encomenda, aquele inicio de fim de tarde puxava a cafés, cigarros, fotos e passeio na multidão, fascinante aquela cidade de mundo inteiro, abraça-nos a alma e joga-nos no espaço onde únicos nos tornamos partes de um todo, como se os pensamentos se elevassem e nos arrumassem peças e ideias. Na companhia de dois non-sense parceiros que aguentam provocação permanente e dão troco, passei uma tarde que nem vi correr e arrancámos então em direcção à 3ª com a não sei quantas, em busca do tal de Milon, restaurante de comida do Bangladesh que me reservava surpresa falada desde a véspera. Entrámos e saímos no Subway , divergiam as opiniões entre Subway e Yellow Cab .... divergiam eles digo eu .. por mim estava tudo bem, tanto me dava, sabia lá qual era melhor se nem vislumbrava a lonjura do destino. Decidimos pelos carris, na bicha dos bilhetes estava um sul americano a ser gritado e de lado olhado por uma gorda afroamericana com ar de inteligência de juntar água e arrogância de frequentadora do McDonald’s, chegou a nossa vez e cuidei que marchávamos a gritos também, . - ‘ three, please ‘ disse o Zé, veio um só, ‘ ... mas eu disse three. Mum ...’ – ‘ pass it three times ‘ , she said com o mesmo ar enjoado com que devia conviver desde a nascença ! Lá fomos ao torniquete, passámos o cartão de um lado e outro, e mais um e mais outro, de pernas para o ar, dentes para cima, dentes para baixo e pôrra de movimento nenhum naquele filhinho da puta de bracinho metálico. Atrás e ao lado era um fartar de gente a seguir, todos menos os três da vida airada, eu já me ria com o ar com que olhávamos o bilhete três em um ... até que alguém se lembrou de chamar uma colega da trombuda, veio a contra gosto e a rosnar superioridades, mas Deus não dorme, menos ainda naquela cidade, e a autoridadezinha fardada, tipo meio policia meio merda nenhuma, passou o cartão como quem mostra como se enche um balão e .... f.....-se à grande e à franciú, népia de abrir o ‘ mãe da foca ‘ do gate. Conseguiu à sétima, deu ainda para um esgar de superioridade em tons de amarelo mui fraquito, passaram dois e o terceiro, eu claro, lá marrou de novo com a bosta do guarda mecânico. Passei pela porta para inválidos e bagagens grandes, por onde certamente passariam as funcionárias desajudantes, fosse o caso de irem passear também . Da 42 St a Downtown foi o do costume, cruzar olhares e adivinhar percursos e vidas de gente que veio do mundo, ficou no mundo e do mundo não me parece que vá sair !
Chegados perto do destino, o Zé e o Artur não quiseram deixar de me brindar com a visita a Washington Square e seu Campus universitário, mais ainda uma livraria que segundo o Artur não podia deixar de me mostrar. A praça é de facto bonita e ficou em foto, a livraria levou o Artur em busca de um quarteirão que, sendo por ali mesmo, acabou por não dar a cara, enquanto o cigarro e as fotos do costume, agora em montra de interiores peças de roupa feminina me ocupavam e ao Zé ! Chegados ao restaurante entendi a surpresa da coisa. É como entrar numa árvore de Natal de um lar na Amadora ou Fogueteiro. A profusão de luzes e o papel de parede escolhido transporta-nos para uma sexta dimensão, como se jantássemos num filme dos anos setenta acerca da psicadelia. Comeu-se bem e o do costume, o picante trata de enganar qualquer prazo que desafie a ASAE local, todos bem apertadinhos e aconchegados, aproveitámos para dar ao dia o tom intelecto-social e debatemos questões sindicais e outras que tais. Antes da conta, aterra-me à frente uma bola de gelado com uma vela, toca uma música de carrinhos de choque, alinhei na coisa que pensei tradicional e bati palmas e mais palmas, até perceber que se festejava o meu aniversário, assim disse o Zé ao empregado, assim as pessoas do restaurante me desejaram um dia especialmente feliz, agradeci sem desmentir a efeméride e atribui a coisa não ao alemão mas ao facto de ser bom ter e estar com amigos avariados dos cornos !
Regressámos pelos eternos caminhos de Cab’s e Sub’s, chegámos ao hotel perto das vinte e três horas deles, quatro da matina nossas, fumei um ultimo cigarro e deixei o frio do dia para trás. Enquanto fazia um ultimo e obrigatório zapping pelos canais de noticias e desporto, o sono atacou-me. Fechei as contas do dia e inclui-o no grupo dos que valeu a pena e muito. Como vale também ter amigos assim.
Obrigado
Zé dos Elevados, obrigado
Artur do Todo !!