terça-feira, 16 de janeiro de 2007

um voo, outro voo, uma queda !

Voltava para casa depois de mais uma viagem, em mais um daqueles vôos sempre iguais, olhava pela janela como fizera milhares de outras vezes, quando pela primeira vez viu as nuvens como elas eram ... um molho de mundos, um mundo de ilhas, sentindo que em cada uma seria alguém , em cada uma poderia ser feliz sendo alguém. A viagem de regresso cumprira os rituais de todas as outras, as lembranças para a sua mulher, para os filhos que eram a sua vida, o memorando para o cliente que dele fizera um homem rico e sem lugar! Pela milésima vez ou mais entrara no aeroporto, deixara o carro alugado no parque, fizera o circuito de controles e mais controles, entre bilhetes e raios X, cada dia mais louco viajar, cada vez maior a paranóia, entre controladores e controlados, tudo gente simples, gente boa, alguma má e complicada, outra nem por isso, turbantes e barbudos, yuppies de juntar água, saloios, apressados, gordos, policias, policias gordos, familiares, namorados tristes que partem , namorados felizes porque bazam, nem em Babel se teriam lembrado de compor melhor ramalhete que nos aeroportos onde passava agora grande parte da sua vida!
Depois dos habituais discursos, de uma refeição que nem em Babel se lembrariam também, com a nova proibição de fumar, leu um pouco e deu por si a rodar de posição, a escolher-se e encolher-se! Ao fim de um tempo, adormecer foi a coisa mais emocionante que encontrou para fazer! Com mais um discurso acordou, estavam a descer, estava frio ou calôr em Lisboa, nem ouviu, apertou o cinto e olhou então pela janela .. olhou e viu pela primeira vez as nuvens como elas eram. Sentiu que tinha de um dia chegar até elas, sabia que descobrir aquelas ilhas seria descobrir a sua vida. Teve saudades dos seus filhos, pensou ainda em Teresa sua mulher, adormeceu e partiu ! Ninguém deu pela falta, nem o parceiro do lado que passara as duas ultimas horas entre espirrar e chamar a assistente de bordo, nem a própria assistente, nem ninguém naquele avião deu pela falta de pessoa ou coisa alguma ... e no entanto partira, deixara para trás o lugar 3F e suas mordomias, volatilizara-se e fizera-se nascer de novo...Voou o mais que pôde, pareceu-lhe ver duas caras de menino na primeira nuvem que passou, hesitou e quis parar mas era tarde, voava sem destino escolhido, ao sabôr de um vento em que sem razão confiava o suficiente para se lhe entregar.... voava e voava pela sua vida, o vento trazia-lhe tudo de volta, os momentos da sua ingenuidade, onde deixara o segredo de acreditar na vida e nas pessoas, onde ainda era possivel sorrir ao acordar, esse sorriso que era hoje a única preciosidade que guardara desse lugar, esse sorriso que não dividira com ninguém até lhe cair na vida um menino, depois outro, os mesmos meninos que sabia ter visto nas nuvens também ! Sem mais saudades, espantou-se ao aterrar sem estrondo naquele paraiso desabitado.... estranhou apenas tanta areia!! O céu que o olhava estava limpo e vazio, o mar não o conhecia tão grande e infindo, a paisagem era apenas de vida com seus sons e silêncios, suas côres e desenhos !
Sentou-se a olhar o mar, deixou passar o tempo e viveu-o pela primeira vez como sempre o desejara ter feito, olhando para dentro de si! À noite, bem à noitinha mandou três beijos e finalmente caiu cansado, o dia começara longe e para longe o tinha levado !

Um comentário:

Sofia disse...

Interessante ideia essa, de que recuperar a crença nas pessoas é recuperar a ingenuidade perdida... será?! Todos nós precisamos de adorar algo ou alguém... Eu também prefiro adorar as pessoas que amo, mas sei que me podem desiludir... É uma opção racional e irracional simultaneamente... uma necessidade, a procura da felicidade!