segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

bendita senhora !



A tarde ia alta, o sol teimava em manter quente a sala, trazendo um conforto tão necessário ao heterogéneo grupo de conhecidos por acaso, naquele dia convocados para a maçada da espera e angústia da expectativa. Espalhados pelo mais variado mobiliário que compunha o espaço, por entre sofás e ' chaise longues ', bancos altos, bancos baixos e mais uma parafernália de cómodos destinados à quietude, dividiam a tarde e o ambiente um improvável conjunto de seres humanos que, por incrivel que pudesse parecer, habitavam o mesmo mundo, respiravam o mesmo ar, olhavam o mesmo céu.
Das profundezas dos seus quase noventa anos, Joaquina, transmontana que nos idos de 30 do século anterior viera para a capital trabalhar em casa de uns senhores, mirava com espanto o seu parceiro de assento, rapaz de cores fracas, adereços nas orelhas, lingua, nariz e umbigo que deixava mostrar, camada de gordura em pele que não via água fazia tempo. Mário, arrumador por necessidades de urgências injectoras, devolvia o olhar à anciã , estranhando na coitada um buço que em nada pedia meças ao bigode do oficial de cavalaria que lhe arruinara três meses de juventude, as roupas cuja cor lhe lembravam fundos de tunel, uns óculos com lentes que dariam para reciclar e fazer um conjunto de cristalaria bom de vender! Falar não falavam, mas tranquilizava-os terem por onde ocupar a mente naquela tarde de sobressalto. Ao fundo, Jaime Corthez de Souza, monárquico por descendência e imbecil por opção, argumentava banalidades com Quim, Joaquim Antunes, garagista de mãos hábeis em motores e facturas por emitir. Também eles pouco entendiam do traje e aspecto alheio, longos bigodes cofiados em curvas altivas, unhas carregadas de restos de óleo sintético, dentes de ouro versus amarelados por cigarros sem filtro, a conversa saltava de cavalos puros lusitanos para cavalos em molhos de cento e quarenta .. ' doutor, havia de ver o binário daquilo ' !
Junto à mesa onde havia café, debatiam banalidades um par pouco crível também, Marlene, nordestina de além mar, estudante em Lisboa, mas de posições e anatomias cobradas, gesticulava nervosamente enquanto escutava e seduzia Marco António e sua carteira, rapagão da mãe e da madrinha, nado na provincia, criado em Santo António dos Cavaleiros, formado a custo no ISE de onde saiu doutor, engenheiro, inchado e respeitado.
Ia a coisa desenrolada nestes preparos, um rol de outros acasalados diálogos se desdobrava noutras improbabilidades agudas, quando a porta dos fundos se abre, silêncio sepulcral, de morte dir-se-ia, e ei-la que surge, impante em suas certezas, velha senhora de negro e foice na mão:

- Então, quem vai comigo já hoje ? Algum candidato ?

O cheiro a suor invadiu a sala, a fezes também alguém juraria depois, perante o desafio daquela
que se sabia inevitável mas que os reduzia à expressão mais simples de coisa alguma.

- Ninguém a bem ? Pois que seja o do costume, seja eu a surpreender e pegar à laia de acaso !

Num repente, fruto de fulminante ataque de arritmias e outras coisas nefastas que tais, cai fulminado um dos presentes e assim apazigua a sede da colectora de fins de ciclos vitais, a tal de ceifeira de escuras vestes retratada.
Saiu a turba em alivio pouco disfarçado, numa algaraviada retornaram a suas casas e vidas fingidas, já fôra o tempo de igualdades em temores e anseios naquela sala repartidos. Iguaizinhos entraram, desiguaizões sairam.
No dia seguinte outros haveriam de ao juizo comparecer, em casa da distinta senhora, bendita senhora que a todos sabia tratar por igual ! Os que se iam, prontos, safos e esquecidos, aquela tarde rápidamente iam esquecer. Tarde de morte, tarde de pouca vida , com medo daquela entraram, com pouco uso desta sairam !

4 comentários:

The Wolf disse...

chá das 5?
ou café das 10?

Eu fico-me pelo café e cigarros!

Abraço

Rita. disse...

O teu texto é delicioso!
Enqt o li calhou estar a ouvir o tema de abertura do american beauty... e não é que foi perfeito! esse encontro parecia saído de um desses filmes non sense, surreais... mas paradoxalmente cheios de sentido... já agr, essas pessos estavam msm reunidas..? e a "Sra" que no fim trata tds por igual não poderia ser melhor desfecho...

Anônimo disse...

Amigo, poucas vezes aqui venho como sabes(cocotes e fraldas + fraldas e cocotes)...porém, hoje tenho que te dizer que nunca tinha lido sobre a senhora morte desta maneira tão irreal e quase apetecivel...

grande abraço bro

V14

redjan disse...

wolf: café & cigarros .. SEMPRE !!

rita: ' .. esse encontro parecia saído de um desses filmes non sense, surreais... ' A nossa vida, portanto ! ;-)
PS: se aquelas pessoas estavam mesmo reunidas ? acho que estariam sim, todos os dias, neste mundo nosso que cada vez menos compreendemos !

bro: quanta honra ver-te por aqui !