segunda-feira, 26 de novembro de 2007

hoje não vem ....

Manhã cedo repetia o ritual, mesa posta de pão e vinho, as mãos fortes do pai que tanto o fascinavam e assustavam, tanto caminho lhe ensinavam. Bebido às pressas um copo de leite imaginado naquela mistura herdada de pobreza longinqua, compunha a velha roupa de sempre que mais que proteger do frio dele soubera fazer-se amiga e suscitar clemência.

- Vai para a escola, aprende os caminhos de gente ! E volta para ajudares a tua mãe, não te quero na floresta !
- Sim pai, volto logo !


Os dias repetiam-se numa desilusão continuada, nada aprendia na escola a não ser a lonjura de amigos, a incompreensão da professora que por certo nem o nome lhe sabia, o frio que se tornava mais frio naquelas paredes de prisão sem grades. Naquele dia decidiu dar a vez à proibida floresta, dela tomou direcção com um calor no coração que o não deixava enganar. Algo ali lhe pertencia para lá do arvoredo. Assim se aventurou Raul, franzino menino de oito anos, por caminho que de vida queria sua ...
De inicio tudo lhe parecia grande e assustador, árvores que tocavam o Céu, ruidos de bicharada que não aprendera em livro algum. Quis voltar atrás, antes a solidão das letras, mas como encontrar os passos que a medo desbravara ? Sentiu um tremor invadi-lo, abraçou-se em si como que buscando o calor do colo de mãe, soube então chegado o momento de encontrar o fim às velhas histórias do avô onde vivia a magia da imortalidade dos heróis.


- Estás perdida, criança ? Que fazes no bosque maldito ?


Olhou para a voz que lhe parecia vir de lado nenhum, um velho sumido e acabado saía da penumbra do emaranhado de troncos, ramos e verde em que se transformara a paisagem. A calma que o invadiu nunca soube explicar, mas o velho seguiu numa manhã e tarde de vida e histórias, de antigamente e de hoje também, onde soube aprender e ouvir o fascinante segredo de pessoas inventadas, vividas em comunhão de medos e quereres, de buscas em dentro de si mesmas. Nada reviu do quotidiano de fracas vontades que penosamente abraçava em mundo onde caíra e sempre ficara. E na magia daquele corpo definhado, no calor daquela voz rouca, de mãos ossudas e quentes, passeou num paraíso que apenas em contos de fadas conhecera. Chegada a noite , com estrelas e suas cores, encontrou-se de volta à clareira por onde havia iniciado tão estranho dia. Regressou a casa, acalmou as preocupações da mãe aflita, a ira do pai desobedecido, castigado não jantou e extenuado adormeceu sabendo-se encontrado.

- Perdi-me pai, apenas isso. Perdi-me !

Passados os dias de ajuizador castigo, saiu em nova manhã de rotina escolar. Percorreu meio trajeto, entrou em conhecido carreiro por entre selvagens bocados de natureza e viu-se de volta ao unico bocado de vida que até então lhe fizera sentir a alma. Não estranhou a quietude, não apreendeu inquietação alguma, não se espantou que da voz de um parado lobo lhe saissem as palavras...

- O velho não vem hoje, talvez não venha nunca mais !

- Eu sei, vim para tomar sua história, para seguir sua vida. Chamo-me Raul e aqui quero aprender os deuses que fazem dum velho o caminho de uma alma e vida !!

7 comentários:

The Wolf disse...

O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.

-in A Sombra do Vento.

Abraço!

gata disse...

na fronteira ténue entre a vida...e a vida...

Belo. Muito belo.

...como de cada encontro se faz uma despedida...


Beijo de Gata Red...

Mónica disse...

"Manhã cedo repetia o ritual, mesa posta de pão e vinho, as mãos fortes do pai que tanto o fascinavam e assustavam, tanto caminho lhe ensinavam. Bebido às pressas um copo de leite imaginado naquela mistura herdada de pobreza longinqua..."

Fabuloso!!
Não só este excerto como tudo o resto. Conjunto fabuloso de expressões e descrições que nos deixam "olhar" para dentro da história, sentir o medo e sentir a vitória de quem "cresce"...
Muito bom mesmo!
Parabéns!
Beijinho

Daniela disse...

=) Às vezes, a vida faz-se nos desvios da caminho padrão. =)

blimunda sete luas disse...

Muito bonito. Parabéns!

redjan disse...

lobo: carlos ruiz zafon ...muiiito bom !

lazy: tx ;-)

monica: glad u liked it ... stay around, always coffee in the table !

danielle: u bet !

bli: welcome to pieces ! ... E volta qd te apetecer. Café, cookies, cigarros, wine n cheese, u name it, u get it @ yr table ... so u feel like to read a bit more !
E ... obrigado, claro !

Cati disse...

Que belo conto da floresta...
...ensina-nos que nem sempre o caminho que parece o mais certo o é, na verdade. É preciso arriscar em caminhos desconhecidos... fintar o medo... e ser feliz no caminho que escolhemos!

Um grande beijo, perdoa a ausência... mas isto não está fácil.